terça-feira, 28 de setembro de 2010
quarta-feira, 2 de junho de 2010
terça-feira, 10 de novembro de 2009
quinta-feira, 11 de junho de 2009
A dor e a morte (António Alçada Baptista)
A natureza do pensamento ocidental, tal como ficou condicionado pela importância que a razão nele tomou, talvez tenha sujeito a condição humana a um incomensurável equívoco. O facto é que temos a presunção de que tudo tem que ser "razoável" mas nada é intrinsecamente "razoável". Se alguém por aí tiver dúvidas, olhe de frente e com demora para a dor e para a morte.
É evidente que isto de considerar a dor e a morte como duas coisas que não deviam existir desencadeou na história uma luta sem tréguas contra uma e contra outra que decerto não teria existido se tivéssemos permanecido budicamente conformados com a sua inamovível existência. Mas o que eu, em horas mais exigentes, me pergunto é se isto de olhar para as evidências do mundo como coisas que não deviam existir não impede ou pelo menos não dificulta a nossa reconciliação com o universo, já que é dessa reconciliação que pode depender a nossa alegria e a nossa paz.
António Alçada Baptista, "Peregrinação Interior - vol. II - O Anjo da Esperança", Editorial Presença
sábado, 25 de abril de 2009
Carta da senhora Stolle à sua Amiga do Peito (Gonzalo Torrente Ballester)
Oh, darling, darling, mon coeur, a que ponto me comove esta coincidência nos gostos que se deduz da tua última carta! Como posso concordar com os laços de moiré na garganta quando se tem um decote escandaloso? E quem me convencerá de que o lacinho, mesmo violeta, minora o efeito, perturbador até à repugnância, do que quase se mostra um pouco mais abaixo? Não sei que inventarão esses Franceses para conseguir que todas as mulheres pareçam cocottes mas, felizmente, o bom exemplo chega-nos do outro lado do canal, nas pessoas e nos costumes da Corte Impecável. Ali não se usam lacinhos de moiré. Logo, nada de lacinhos e para o Inferno, sem paliativos, aquela que os usar. Consultei sobre o caso o reverendo Virgílio, que é um dos meus fiéis (já te falei dele, não é verdade?) e, depois de estudar o caso muito conscienciosamente, respondeu-me que a intenção do lacinho, apesar de inicialmente parecer convidar a uma distracção, acaba por actuar como um indicador e que, portanto, e sem susto, se pode considerar o seu uso como um costume quase diabólico, no caso - acrescentou - de o diabólico existir como se vem entendendo e não de maneira abstracta e especulativa, entre a fantasia teológica e a poética." "Então, reverendo, o senhor acha que a senhora Rheinland, que foi a primeira a usá-lo, ao mesmo tempo que rebaixa o decote uma polegada está, como quem diz, no próprio Inferno?" O reverendo demorou-se um momento a responder, como se estivesse a pensar no assunto; depois disse-me: "No caso problemático de que exista o Inferno e de que a senhora Rheinland se sobreviva a si própria para poder ir ter a ele, pode ter a certeza de que, de certo modo, já lá está instalada." "Mas, reverendo, isso que acaba de me dizer supõe alguma dúvida acerca da realidade do Inferno?" "Dúvida metódica tão-só, dúvida científica. O teólogo sério não pode, sem mais nem ontem, aceitar as crenças tradicionais que, pelo menos uma vez em cada século, têm de ser revistas. Nós quase não o fazemos desde os tempos de Lutero." Não desatei a chorar por vergonha, nem me lancei nos seus braços porque o pobre Virgílio é tão distraído e, sobretudo, tão inexperiente (pratica o celibato, como nos velhos tempos) que não teria sabido o que fazer comigo, apesar de estarmos sós e de eu saber de sobra o que faria com ele. Irritava-me suspeitar que a senhora Rheinland pode continuar a mostrar os peitos aqui no Aquém, com a consciência tranquila acerca do que lhe possa vir a acontecer no Além. Eu tenho má consciência, graças a Deus e à boa educação que recebi; que seria de nós sem a má consciência? Que seria de ti, amor, darling, exímia em tantas perversidades mentais? Lembras-te de quando, na corte de Haia, brincávamos a fazer de conta que matávamos as pessoas feias? Que as matávamos com o coração, não com punhal nem com veneno. Finalmente acalmei. "Reveja o que lhe parecer bem, reverendo, mas não nos deixe sem Inferno. Se me tira essa arma, como poderei combater contra essa bruxa da senhora Rheinland, essa judia vergonhosa e desavergonhada?" "Pensarei nisso, pensarei nisso." No fundo, foi uma sorte que o reverendo não me tenha levantado as saias, como era o meu gosto, porque, naquele momento, entrou Simone Paschal com notícias políticas expressas aos gritos convulsos. "Correm com ele, correm com ele, querem correr com ele!" "Com quem?" "Com quem haveria de ser? Com o grão-duque." As notícias que trazia talvez venham de Viena, mas talvez venham de Munique e, com estas incertezas, nunca há nada que se possa comentar com um mínimo de lógica, como nos bons tempos. As notícias incertas só permitem o comentário a meias, cheias de mas, de talvez, de quem sabe, e de distinguos perigosos. E as mulheres como eu só se mostram na plenitude do seu encanto quando afirmam, quando esmagam. Tive que desviar a conversa para a senhora Rheinland e afirmar, como se afirma a morte, que segura as mamas com um artifício moderno que lhe trouxeram de Paris (a propósito, sabes alguma coisa disso?). Enfim, é muito provável que tu, nesse retiro italiano, saibas mais do que nós ou, pelo menos, que as notícias te cheguem menos torcidas. A única coisa segura é que resta, ao grão-duque, pouco tempo de reinado, a não ser que apareça não sei que talismã milagroso do qual se fala por estes dias, que um verdadeiro exército de esbirros se dedica a procurar por toda a cidade, não da parte do grão-duque, que esse não está nada preocupado, mas da outra. Um talismã! Imagina. Como nos tempos da Maria Caxuxa. Será esse falo francês que usava Isabel de Inglaterra e que lhe deu tanta sorte que foi a única das jóias da coroa que não apareceu nunca? Trata-se de algo desse tipo que, encontrado, assegurará o trono ao nosso grão-duque. Dizem que o traz um adolescente divino, ao qual quiseram já assassinar umas vezes, sei lá, e que o verei trazer ao meu salão. Além do mais é poeta. Isso do divino entende-o como quiseres.
Não deixes de me dizer como resolvem as Italianas a questão do lacinho. Não estou nada tranquila. Tenho ouvido dizer que os moralistas católicos permitem que o decote baixe tudo o que se quiser contanto que não se mostrem as pontinhas. Que mesquinhos são esses padres! Imorais! E os peitos que vão caindo, quê?
Margarita, darling, manda-me um desses livros que tu sabes. A senhora Rheinland dedica-se à importação de escritores franceses. Os ingleses já os conhecemos todos, ainda que não entendamos nenhum. Que se escreve em Itália? A velha musa de Aretino, já se extinguiu? É a maldita política que esgota o bom humor e a invenção.
Gonzalo Torrente Ballester, "A Rosa dos Ventos", Difel
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
Ode à chuva (Pablo Neruda)

Voltou a chuva.
Mas não veio do céu
ou do Oeste.
Voltou da minha infância.
A noite abriu-se, um trovão
comoveu-a, o estrondo
varreu as solidões,
e então
chegou a chuva
da minha infância,
primeiro
numa rajada
raivosa, depois
como a cauda
molhada
dum planeta,
a chuva
tic tac mil vezes tic
tac mil
vezes um trenó,
uma vasta pancada
de escuras pétalas
na noite,
subitamente
intensa
crivando
a folhagem
com agulhas,
outras vezes
um manto
tempestuoso
tombando
no silêncio,
a chuva,
mar do céu,
rosa fresca,
Mas não veio do céu
ou do Oeste.
Voltou da minha infância.
A noite abriu-se, um trovão
comoveu-a, o estrondo
varreu as solidões,
e então
chegou a chuva
da minha infância,
primeiro
numa rajada
raivosa, depois
como a cauda
molhada
dum planeta,
a chuva
tic tac mil vezes tic
tac mil
vezes um trenó,
uma vasta pancada
de escuras pétalas
na noite,
subitamente
intensa
crivando
a folhagem
com agulhas,
outras vezes
um manto
tempestuoso
tombando
no silêncio,
a chuva,
mar do céu,
rosa fresca,
nua,
voz celeste,
violino negro,
formosura,
amo-te
desde criança,
não por seres boa,
mas pela tua beleza.
Caminhei
com os sapatos rotos
enquanto os fios
do céu escancarado
se desatavam sobre
a minha cabeça,
traziam-nos
a mim e às raízes,
as mensagens
das alturas,
o húmido oxigénio,
a liberdade do bosque.
Conheço
os teus desmandos,
o buraco
no telhado
gotejando
nos quartos
dos pobres:
ali desmascaras
a tua beleza,
és hostil
como uma
celestial
armadura,
como um punhal de vidro,
transparente,
ali
conheci-te de verdade.
No entanto,
continuei
apaixonado
por ti,
de noite
fechando os olhos
esperei que caísses
sobre o mundo,
esperei que cantasses
somente para o meu ouvido,
porque o meu coração guardava toda
a germinação terrestre
e é nele que se fundem os metais
e o trigo se levanta.
Amar-te, no entanto,
deixou-me na boca
um gosto amargo,
amargo sabor de remorso.
De noite, aqui em Santiago,
somente as povoações
de Nueva Legua
se desmoronaram,
as vivendas
cogumelo,
amontoados
fragmentos de ignomínia,
ao peso da tua cólera
desmantelaram-se,
as crianças
choravam na lama,
as camas encharcadas
dias e dias,
as cadeiras quebradas,
as mulheres,
o lume, as cozinhas,
enquanto tu, negra chuva,
inimiga,
caías desalmadamente
sobre a nossa miséria.
Eu creio
que um dia,
que marcaremos no calendário,
terão abrigo seguro,
sólido tecto,
os homens no seu sono,
todos
os adormecidos,
e quando de noite
a chuva
regressar
da minha infância
cantará nos ouvidos
doutras crianças
e alegre
será o canto
da chuva no mundo,
e trabalhadora,
proletária,
ocupadíssima,
fertilizando montes
e planícies,
dando força aos rios,
engalanando
o suave arroio
perdido na montanha,
trabalhando
no gelo
das nevadas,
correndo sobre o lombo
do gado,
engrandecendo o germe
primaveril do trigo,
lavando as amêndoas
ocultas,
trabalhando
denodadamente
e com delicadeza fugidia,
com mãos e com fios
na preparação da terra.
Chuva
passada,
ó triste
chuva
de Loncoche e Temuco,
canta,
canta,
canta sobre os telhados
e as folhas,
canta no vento frio,
canta em meu coração, na minha confiança,
no meu telhado, em minhas veias,
na minha vida,
eu não te receio,
resvala
para a terra
cantando com o teu canto
e com o meu
porque os dois temos
trabalho nas sementes
e partilhamos
o dever cantando.
voz celeste,
violino negro,
formosura,
amo-te
desde criança,
não por seres boa,
mas pela tua beleza.
Caminhei
com os sapatos rotos
enquanto os fios
do céu escancarado
se desatavam sobre
a minha cabeça,
traziam-nos
a mim e às raízes,
as mensagens
das alturas,
o húmido oxigénio,
a liberdade do bosque.
Conheço
os teus desmandos,
o buraco
no telhado
gotejando
nos quartos
dos pobres:
ali desmascaras
a tua beleza,
és hostil
como uma
celestial
armadura,
como um punhal de vidro,
transparente,
ali
conheci-te de verdade.
No entanto,
continuei
apaixonado
por ti,
de noite
fechando os olhos
esperei que caísses
sobre o mundo,
esperei que cantasses
somente para o meu ouvido,
porque o meu coração guardava toda
a germinação terrestre
e é nele que se fundem os metais
e o trigo se levanta.
Amar-te, no entanto,
deixou-me na boca
um gosto amargo,
amargo sabor de remorso.
De noite, aqui em Santiago,
somente as povoações
de Nueva Legua
se desmoronaram,
as vivendas
cogumelo,
amontoados
fragmentos de ignomínia,
ao peso da tua cólera
desmantelaram-se,
as crianças
choravam na lama,
as camas encharcadas
dias e dias,
as cadeiras quebradas,
as mulheres,
o lume, as cozinhas,
enquanto tu, negra chuva,
inimiga,
caías desalmadamente
sobre a nossa miséria.
Eu creio
que um dia,
que marcaremos no calendário,
terão abrigo seguro,
sólido tecto,
os homens no seu sono,
todos
os adormecidos,
e quando de noite
a chuva
regressar
da minha infância
cantará nos ouvidos
doutras crianças
e alegre
será o canto
da chuva no mundo,
e trabalhadora,
proletária,
ocupadíssima,
fertilizando montes
e planícies,
dando força aos rios,
engalanando
o suave arroio
perdido na montanha,
trabalhando
no gelo
das nevadas,
correndo sobre o lombo
do gado,
engrandecendo o germe
primaveril do trigo,
lavando as amêndoas
ocultas,
trabalhando
denodadamente
e com delicadeza fugidia,
com mãos e com fios
na preparação da terra.
Chuva
passada,
ó triste
chuva
de Loncoche e Temuco,
canta,
canta,
canta sobre os telhados
e as folhas,
canta no vento frio,
canta em meu coração, na minha confiança,
no meu telhado, em minhas veias,
na minha vida,
eu não te receio,
resvala
para a terra
cantando com o teu canto
e com o meu
porque os dois temos
trabalho nas sementes
e partilhamos
o dever cantando.
Pablo Neruda, "Odes elementares", Publicações Dom Quixote
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