terça-feira, 23 de setembro de 2014

O Outono na poesia de Eugénio de Andrade

Claude Monet


DESPEDIDA DO OUTONO

Eu já ouvira o apelo do tordo
junto às águas velhas
do rio, ou na luz vidrada
das lentas oliveiras do sul.
Pensava então que não podia morrer
quem tanto amou

o claro timbre das vogais
trazidas pelo mar - o outono,
esse morria nas chamas

altas dos castanheiros,
na sonâmbula ondulação
dos rebanhos, nos olhos das mulheres

de coração fatigado,
semelhantes a ramos partidos
- elas, que foram irmãs do orvalho.

In "Os Lugares do Lume"



SE DESTE OUTONO

Se deste outono uma folha,
apenas uma, se desprendesse
da sua cabeleira ruiva,
sonolenta,
e sobre ela a mão
com o azul do ar escrevesse
um nome, somente um nome,
seria o mais aéreo
de quantos tem a terra,
a terra quente e tão avara
de alegria.

In "O Sal da Língua"



O ESPÍRITO DO OUTONO

Terei de falar do espírito do outono
agora que setembro
chegou ao fim. (Espírito
é palavra suspeita: não há
hipócrita que não se abrigue
à sua sombra.) Será
a embriaguez? O vento matinal
arrastando folhas
raparigas canções?
O sopro frio das estrelas?
Será a beleza,
o espírito do outono? Há um limite
para o homem, um limite
para suportar o peso do mundo.
Da beleza, da bárbara
orgulhosa beleza, quem sabe defender-se
sem medo do coração lhe rebentar?

In "O Sal da Língua"


LUGARES DO OUTONO

Outono, labirinto de silvas,
de sílabas, digo: pupila lenta,
rio de inumeráveis águas
e de amieiros onde canta
a derradeira luz das cigarras,
de vidro ainda, e leve, e branca.

In "Cumplicidades do Verão"


OUTONO

O outono vem vindo, chegam melancolias,
cavam fundo no corpo,
instalam-se nas fendas; às vezes
por aí ficam com a chuva
apodrecendo;
ou então deixam marcas, as putas,
difíceis de apagar, de tão negras,
duras.

In "Cumplicidades do Verão"

quinta-feira, 22 de março de 2012

Cesariny - Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos

Há uma hora, há uma hora certa
que um milhão de pessoas está a sair para a rua.
Há uma hora, desde as sete e meia horas da manhã
que um milhão de pessoas está a sair para a rua.
Estamos no ano da graça de 1946
em Lisboa, a sair para o meio da rua.
Saímos? Mas sim, saímos!
Saímos: seres usuais, gente-gente, olhos, narinas, bocas,
gente feliz, gente infeliz, um banqueiro, alfaiates, telefonistas,
varinas, caixeiros desempregados,
uns com os outros, uns dentro dos outros
tossicando, sorrindo, abrindo os sobretudos, descendo aos mictórios
para apanhar eléctricos,
gente atrasada em relação ao barco para o Barreiro
que afinal ainda lá estava apitando estridentemente,
gente de luto, normalmente silenciosa
mas obrigada a falar ao vizinho da frente
na plataforma veloz do eléctrico em marcha,
gente jovial a acompanhar enterros
e uma mãe triste a aceitar dois bolos para a sua menina.
Há uma hora, isto: Lisboa e muito mais.
Humanidade cordial, em suma,
com todas as consequências disso mesmo
e a sair a sair para o meio da rua.
E agora, neste momento - que horas são? -
a telefonista guarda o baton na mala usa os auscultadores liga
electricamente Lisboa a Santarém
e começou o dia
o pedreiro escalou para o telhado mais alto e cantou qualquer coisa
para começar o dia
o banqueiro sentou-se, puxou de um charuto havano, pensou um
bocado na família
e começou o dia
a varina infectou a perna esquerda nos lixos da Ribeira
e começou o dia
o desempregado ergueu-se, viu chuva na vidraça, e imaginou-se
banqueiro
para começar o dia
o presidiário, ouvindo a sineta das nove,
começou o seu dia sem dar início a coisa alguma.
Agora fumo, trepidação,
correias volantes de um a outro extremo da fábrica isolada,
cigarros meio fumados em cinzeiros de prata,
bater de portas - pás! - em muitas repartições,
uma velha a morrer silenciosamente em plena rua
e um detido a apanhar porrada embora acreditem nele.
Agora pranto e pranto
na bata da manucure apetitosa do salão Azul.
Agora, regressão, milhões de anos para trás,
patas em vez de mãos, beiços em vez de lábios,
crocodilos a rir em corredores bancários
apesar das mulheres terem varrido muito bem o chão.
Agora tudo isto e nada disto
em plena e indecorosa licenciosidade comercial
pregando partidas, coçando, arruinando, retorcendo o facto atrás
dos vidros
- um tiro nos miolos e muito obrigado, sempre às ordens!
(a velha já morreu e no seu leito de morte
está agora um automóvel verdadeiramente aerodinâmico
e a tocar telefonia: and you, and you my darling?)
Há uma hora, Isto! Há duas, ISTO!
E eu? Eu, eu, é claro...

Paro um pouco a enrolar o meu cigarro (chove)
e vejo um gato branco à janela de um prédio bastante alto
Penso que a questão é esta: a gente - certa gente - sai para a rua,
cansa-se, morre todas as manhãs sem proveito nem glória
e há gatos brancos à janela de prédios bastante altos!
Contudo e já agora penso
que os gatos são os únicos burgueses
com quem ainda é possível pactuar -
vêem com tal desprezo esta sociedade capitalista!
Servem-se dela, mas do alto, desdenhando-a...
Não, a probabilidade do dinheiro ainda não estragou inteiramente o gato
mas de gato para cima - nem pensar nisso é bom!
Propalam não sei que náusea, retira-se-me o estômago só de olhar para eles!
São criaturas, é verdade, calcule-se,
gente sensível e às vezes boa
mas tão recomplicada, tão bielo-cosida, tão ininteligível
que já conseguem chorar, com certa sinceridade,
lágrimas cem por cento hipócritas.
E o certo é que ainda têm rapazes de Arte, gente

que pôs a alegria a pedir esmola e nessa mesma noite foi comprar para o cinema
porque há que ir ao cinema, ele é por força, é por amor de Deus, ah,
não! não! isso não!, não se atravessem nesta bilheteira!!
Vamos estar tão bem! Vai ser tudo Tão Bonito!
Ah, e quem é que vê o logro? A quem é que isto cheira a ranço?
Porque é que a freguesa de Panos Limitada não exige três quartas de cinema
e sim três quartas partes de lã carneira?
Porque é que a pianista compra do Alves Redol
quando está a pensar nas pernas e no peito do louro galã yankee?
E por que raio despede o senhor Director três humílimos empregados
quando a verdade é que já lá vão três meses e ainda não viu um que lhe enchesse as medidas?

Com certa espécie de solidariedade
lembro-me de ti, Mário de Sá-Carneiro,
Poeta-gato-branco à janela de muitos prédios altos.
Lembro-me de ti, ora pois, para saudar-te,
para dizer bravo e bravo, isso mesmo, tal qual!
Fizeste bem, viva Mário!, antes a morte que isto,
viva Mário a lançar um golpe de asa e a estatelar-se todo cá em baixo
(viva, principalmente, o que não chegaste a saber, mas isso é já outra história...)

E com uma solidariedade muito mais viva
lembro-me de ti, meu vizinho de baixo,
sapateiro-gato-branco, mas no rés-do-chão, desta vez...
É curioso que não te possas suicidar
só porque a tua janela está ao nível do mundo
e que cantes alegremente de manhã à noite
com uma casa de seis andares em cima de ti.
Também tu foste empurrado, também te disseram: Fora, gato!
Mas achaste isso quase natural (e não o é, deveras?)
E agora, guardando em ti todas as tuas grandes qualidades
vais vivendo um pouco à margem, um pouco no quinto andar...

Deito fora o cigarro que já me sabia a amargo
e decido-me a andar - mas para quê? Mas para onde?
As lojas estão abertas mas nunca se viu coisa tão fechada
Ah! heróis do trabalho, que coisas raras fazeis!
Não sou um proletário - vê-se logo
- mas odeio cordialmente a gataria
e quanto a crocodilos, nem os do Jardim Zoológico me atraem
quanto mais estes! - E aqui é que começa o embróglio...

O pouco amor que eu tive à burguesia
deixei-o todo numa casa de passe
quando me perguntaram: quer assim? Ou assim?
E agora, era fatal, falto ao escritório,
falto ao escritório, pontualmente, todas as manhãs.
Mas vejamos, ó minha alma, se podes, arrumemos
um pouco a casa escura que te deram.
Eu
estudei música, como toda a gente
(ou talvez um pouco mais do que toda a gente?)
Não. Por aqui não nos entendemos.
Estudemos outro papel. Outro fim. Outras músicas.

Recomecemos: Um:
Estes versos não querem de modo algum ser versos
porque quem hoje em Portugal quer de algum modo fazer versos versos
está em muito maus lençóis.

(este o primeiro artigo da minha constituição)
Segundo:
Apesar de tudo, saí para a rua com bastante naturalidade
e que vi eu? Que é isto? (e que esperava eu ver?)

Terceiro:
(e aqui começa, talvez, o desembróglio)
vi também um vapor que ia para o Barreiro
e tive pena de não ir com ele
mas não sou um proletário (não, ainda não)
e atravessar a nado - quem é que disse que pode?

Fiquei-me a vê-lo: primeiro junto ao cais
com um certo ar simpático de proletário dos mares
e apinhado de gente - tanta espécie dela!
Depois a meio do rio, destacado e nítido,
depois um ponto vago no horizonte (ó minha angústia!)
ponto cada vez mais vago no horizonte

e de repente, ao virar uma esquina, já depois de outra esquina,
vejo uma nova espécie de enforcado
um homem novo em cima de um escadote
a colar afixar cartazes deste género:

VOTA POR SALAZAR

Paro. Paro de novo. Pararei sempre enquanto
afixarem cartazes deste género.
Um chefe não é grande pelo nome que arranjou.
Salazar Xavier Francisco da Cunha Altinho isso que importa.
Um chefe é grande pelas suas obras, pelo amor que inspira.
Pois os fascistas os nossos bons fascistas
querem que a gente vote por um nome
por um nome calcula essa coisa qualquer que qualquer fulano tem!
Vota por Salazar ora pois ó meu povo
vota por sete letras muito bem arrumadas em três sílabas.

Deito a cabeça para trás para deixar sair a gargalhada
e aproximo-me do homem em cima do escadote
aproximo-me tanto que ele nota
alguém que se aproxima
e o braço cai-lhe, grosso, pingando água num balde
............................................................................
... Dá os bons dias a este irmão, a este bom irmão
que anda a colar cartazes para não morrer de fome!...
............................................................................

domingo, 2 de outubro de 2011

Eduardo Galeano - Os ninguéns

As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não choveu ontem, nem hoje, nem choverá amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos.
Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não têm cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Italo Calvino - O seio nu

O senhor Palomar caminha ao longo de uma praia solitária. Encontra poucos banhistas. Uma mulher jovem está estendida na areia, apanhando sol com os seios descobertos. Palomar, homem discreto, volve o seu olhar para o horizonte marinho. Sabe que em semelhantes circunstâncias, quando um desconhecido se aproxima, as mulheres, geralmente, apressam-se a cobrir-se, e isso não lhe parece bem: porque é aborrecido para a banhista que apanha sol tranquilamente; porque o homem que passa sente que importuna; porque o tabu da nudez fica implicitamente confirmado; porque as convenções não inteiramente respeitadas propagam a insegurança e a incoerência no comportamento, em vez da liberdade e da franqueza.
Por isso, assim que vê aparecer à distância a nuvem brônzeo-rósea de um torso nu feminino, apressa-se a colocar a cabeça de molde a que a trajectória do seu olhar permaneça suspensa no vazio, como garante do seu respeito cívico pela fronteira invisível que circunda as pessoas.
No entanto - pensa ele continuando a caminhar e, mal o horizonte se encontra desocupado, retomando o livre movimento do globo ocular - eu, assim fazendo, ostento uma recusa de ver, eu próprio acabo por reforçar a convenção que considera ilícita a vista do seio, ou seja, instituo uma espécie de soutien mental, suspenso entre os meus olhos e aquele peito, o qual, a julgar pelo reflexo que dele chegou aos confins do meu campo visual, me pareceu fresco e agradável à vista. Em suma, o meu não olhar pressupõe que estou a pensar naquela nudez, que me preocupo com ela, o que no fundo é ainda uma atitude indiscreta e retrógrada.
Regressando do seu passeio, Palomar volta a passar diante daquela banhista e desta vez mantém o olhar fixo à sua frente, de modo a que este aflore com uma imparcial uniformidade a espuma das ondas que recuam, os cascos dos barcos postos em seco, a toalha turca estendida na areia, a pródiga lua cheia de pele mais clara com a auréola castanha do mamilo, o perfil da costa na bruma que contrasta, cinzenta, contra o céu.
Aí está - reflecte ele satisfeito consigo próprio, prosseguindo a sua caminhada - consegui fazer com que o seio fosse completamente absorvido pela paisagem e com que o meu olhar não tivesse mais peso do que o olhar de uma gaivota ou de um badejo.
Mas será verdadeiramente justo proceder assim? - reflecte ainda Palomar. - Ou não será isso rebaixar a pessoa humana ao nível das coisas, considerá-la um objecto e, o que é ainda pior, considerar como um objecto aquilo que na pessoa é específico do sexo feminino? Não estarei eu talvez a perpetuar o velho hábito da supremacia masculina, enquistada através dos tempos numa insolência rotineira?
Volta-se e regressa sobre os seus próprios passos. Agora, ao obrigar o seu olhar a percorrer a praia com imparcial objectividade, procede de modo a que, mal o peito da mulher entre no seu campo visual, se note uma descontinuidade, um desvio, quase um sobressalto. O olhar avança até aflorar a pele tensa, recua, como que avaliando com um ligeiro arrepio a consistência diferente da visão e o valor especial que ela adquire, e fica por um momento a pairar no ar, descrevendo uma curva que acompanha o relevo do seio a uma certa distância, de uma forma evasiva mas simultaneamente protectora, para depois retomar o seu curso, como se nada se tivesse passado.
Creio que assim a minha posição resulta bem clara - pensa Palomar - sem qualquer possibilidade de haver mal-entendidos. E, no entanto, este sobrevoar do olhar não poderia acabar por ser entendido como uma atitude de superioridade, um subestimar daquilo que um seio é e daquilo que ele significa, colocando-o, de algum modo, à parte, à margem, ou entre parêntesis? Lá estou eu outra vez a relegar o seio para a penumbra em que foi mantido por séculos de pudicícia sexo-maníaca e de pecado de concupiscência...
Semelhante interpretação vai contra as melhores intenções de Palomar que, apesar de pertencer a uma geração madura, para a qual a nudez do peito feminino era asociada à ideia de intimidade amorosa, aplaude no entanto esta mudança nos usos e costumes, quer pelo que ela significa como reflexo de uma mentalidade mais aberta, quer porque uma tal visão lhe é particularmente grata. É esse apoio desinteressado que ele gostaria de poder exprimir no seu olhar.
Faz meia-volta. Com passos decididos, encaminha-se uma vez mais na direcção da mulher estendida ao sol. Desta vez o seu olhar, lambendo voluptuosamente a paisagem, deter-se-á sobre os seios com especial atenção, mas apressar-se-á a considerá-los como parte de um arrebatamento de benevolência e de gratidão pelo todo, pelo sol e pelo céu, pelos pinheiros inclinados, pela duna e a areia e os escolhos e as núvens e as algas, pelo cosmos que gira em torno daqueles cumes aureolados.
Tanto deveria bastar para tranquilizar definitivamente a banhista solitária e para desembaraçar o ambiente de ilações deslocadas. Mas assim que ele volta a aproximar-se, ei-la que se levanta de repente, cobrindo-se e bufando aborrecida, afastando-se e encolhendo enfastiadamente os ombros, como se estivesse a fugir às molestas insistências de um sátiro.
O peso-morto de uma tradição de maus-costumes não permite que se apreciem com a devida justiça as intenções mais iluminadas, conclui amargamente o senhor Palomar.
Italo Calvino, Palomar

domingo, 30 de janeiro de 2011

domingo, 7 de novembro de 2010

Guillaume Apollinaire - Le Pont Mirabeau



Sous le pont Mirabeau coule la Seine
Et nos amours
Faut-il qu’il m’en souvienne
La joie venait toujours après la peine
Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeure

Les mains dans les mains restons face à face
Tandis que sous
Le pont de nos bras passe
Des éternels regards l’onde si lasse
Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeure

L’amour s’en va comme cette eau courante
L’amour s’en va
Comme la vie est lente
Et comme l’Espérance est violente
Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeure

Passent les jours et passent les semaines
Ni temps passé
Ni les amours reviennent
Sous le pont Mirabeau coule la Seine
Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeure

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

UMBERTO ECO - Um Sonho

Quando alguém diz "sonho com" ou "sonhei que", normalmente entende-se que esse sonho materializou ou revelou os seus desejos. Mas um sonho pode ser também um pesadelo, que nos anuncia aquilo que não desejamos de modo nenhum, ou um sonho revelador, que precisa da intervenção de um intérprete autorizado, que nos explique o que é que o sonho anunciava, quais eram as suas promessas ou ameaças.
O meu sonho é desta terceira natureza, e conto-o tal como o sonho, sem me perguntar antecipadamente se corresponde aos meus desejos ou aos meus medos.
Sonho que há um black-out global, que deixa todo o mundo civilizado completamente parado, e que numa tentativa desenfreada de se atribuírem responsabilidades, na tentativa de se reagir a uma ameaça, rebenta uma bela guerra planetária. Mas uma daquelas guerras sensacionais, não um incidente marginal ao estilo da Segunda Guerra Mundial, que só fez cinquenta e cinco milhões de mortos. Uma guerra verdadeira, daquelas que hoje a técnica permite travar, com áreas inteiras do planeta desertificadas pela radiação, com o desaparecimento de pelo menos metade da população mundial por entre fogo amigo, fome, pestes, em suma, uma coisa como deve ser, levada a cabo por generais competentes e responsáveis, à altura dos tempos que correm.
Naturalmente (também somos egoístas nos sonhos), sonho que eu e os meus familiares e amigos vivemos numa zona do planeta (possivelmente a nossa) em que a situação ainda não se tornou completamente desesperada.
Não haverá televisão, para já não falar da Internet, visto que as linhas telefónicas também foram pelos ares. Restará uma ou outra comunicação via rádio, através dos velhos aparelhos a galena. As linhas eléctricas também serão destruídas, mas remendando aqui e ali uns quantos painéis solares, sobretudo nas casas de campo, conseguiremos ter algumas horas de luz; para o resto, teremos de ir ao mercado negro comprar petróleo para os candeeiros, tanto mais que já ninguém vai perder tempo a refinar gasolina para os automóveis que, a existirem, já não terão estradas por onde andar. Na melhor das hipóteses, restarão carroças e caleches puxadas por cavalos.
A esta escassa luz, e possivelmente junto a uma lareira alimentada a lenha com parcimónia, poderei então ler aos meus netos, órfãos da televisão, velhos livros de fábulas encontrados no sótão, ou contar-lhes como era o mundo antes da guerra.
Ao fim da tarde, vamos sentar-nos à volta do rádio e captaremos uma ou outra transmissão distante, que nos dirá como estão a correr as coisas no resto do mundo e nos prevenirá dos perigos que se adensam à nossa volta. Vamos voltar a treinar pombos-correios para podermos comunicar, e será agradável desprender das suas patas uma mensagem acabada de chegar, dizendo-nos que a nossa tia sofre de ciática mas lá se vai aguentando, ou encontrar o jornal do dia anterior no stencil.
Pode até ser que nos tenhamos refugiado no campo, onde se salvou uma velha escola, e nesse caso eu daria o meu contributo à comunidade ensinando Gramática ou História - nunca Geografia, porque entretanto o território teria mudado de tal maneira que falar de Geografia seria o mesmo que falar da História Antiga. Se não houvesse a escola, juntaria os meus netos e os amigos deles, e dava aulas em casa, primeiro uns rabiscos, para ganharem mão, e não só na escrita como também nos numerosos trabalhos manuais que terão de desempenhar, e em seguida coisas mais sérias; se houvesse alunos mais crescidos poderia até dar-lhes umas boas lições de Filosofia.
Pode ser que também se tenha salvo o pátio da paróquia, com um pequeno campo de futebol (onde os rapazes irão jogar com uma bola de trapos), talvez descubramos na cantina um velho jogo de matraquilhos, e talvez o pároco peça ao carpinteiro para construir uma mesa de pingue-pongue, que os jovens vão achar mais apaixonante e mais criativo do que todos os videojogos de antigamente.
Vamos comer muita verdura, se a zona não tiver sido contaminada pelas radiações, e as urtigas cozidas saberão tão bem que vamos pensar que estamos a comer espinafres. Como se multiplicam por vocação, os coelhos não hão-de faltar, e talvez até um frango aos domingos, o peito para a filha mais nova, para a mais velha uma coxa, as asas para o pai, a outra coxa para a mãe, e para a avó, que é um bom garfo, o pescoço, a cabeça e a mitra, que nos frangos caseiros é a parte mais saborosa.
Redescobriremos o prazer dos passeios a pé, o aconchego dos velhos casacões fora de moda, e das luvas de lã, com as quais vamos poder atirar bolas de neve.
Não pode faltar o velho médico de província, capaz de misturar os restos de aspirina com quinino. É claro que, sem as câmaras hiperbáricas, as tacs e as ecografias, a esperança média de vida vai baixar para cerca de sessenta anos, o que no fim de contas não será nada mau, dada a média noutros pontos do globo.
As colinas voltarão a estar salpicadas de moinhos de vento. Em frente aos braços dos moinhos, os velhos contarão a história de Dom Quixote, e as crianças vão achá-la fascinante. Haverá música, e todos aprenderão a tocar um velho instrumento redescoberto; por muito má que seja a situação, bastam uma faca e uma cana para se fazerem orquestras inteiras de flautas, aos domingos vamos dançar nas praças, e talvez ainda se encontre um acordeonista que tenha conseguido sobreviver e saiba tocar a Migliavacca.
Jogaremos de novo às cartas nos bares e nas tabernas, enquanto bebemos champanhe e vinho novo. O bobo da aldeia, obrigado a abandonar a vida política, vai voltar a circular por aí. Os jovens desmotivados vão procurar consolo nos vapores de camomila com uma toalha na cabeça, e dirão que se sentem nas nuvens.
Vamos voltar a ver animais a saltitarem de um lado para o outro nas montanhas, texugos, fuinhas, raposas e lebres até mais não, e até os defensores dos animais vão concordar em ir à caça de vez em quando, para arranjar alimentos com proteínas; usaremos velhas espingardas, se as houver, ou podemos sempre socorrer-nos de arcos e flechas, e zarabatanas vibráteis.
Nos vales, à noite, ouviremos o ladrar dos cães, que andarão sempre bem alimentados e serão estimados, porque se descobrirá que substituem os sistemas electrónicos de alarme a baixo custo. Ninguém voltará a abandoná-los nas auto-estradas, em primeiro lugar porque adquiriram valor comercial, e em segundo porque já não há auto-estradas, e mesmo que as houvesse ninguém estaria disposto a utilizá-las, porque levariam demasiado depressa a uma zona que é melhor evitar, ubi sunt leones.
A leitura reflorescerá, porque os livros, excepto em caso de incêdio, sobrevivem a muitos desastres, e havemos de reencontrá-los em armazéns abandonados, subtraídos às grandes bibliotecas citadinas arruinadas. Vão voltar a circular por empréstimo, serão oferecidos no Natal, far-nos-ão companhia durante os longos Invernos, e até no Verão, quando fizermos as nossas necessidades debaixo de uma árvore.
Apesar das vozes inquietantes da rádio, os mais poéticos de entre nós vão manter a esperança e dar gaças aos céus todas as manhãs por ainda estarmos vivos e porque o Sol brilha, dizendo que, bem vistas as coisas, está a nascer uma nova Idade de Ouro.

Ao fazer as contas e me aperceber de que estes renovados prazeres têm de ser pagos com um mínimo de três biliões de mortos, com o desaparecimento das pirâmides e da Basílica de S. Pedro, do Louvre e do Big Ben (de Nova York nem se fala, será um imenso Bronx), e que eu estarei condenado a fumar palha (se todas estas desgraças não me fizerem perder o vício), quando acordo do meu sonho sinto-me bastante inquieto e - dizendo a verdade - espero que nunca se venha a tornar realidade.
Em todo o caso, fui consultar um sujeito que se dedica à adivinhação e que até sabe interpretar as vísceras dos animais e o voo dos pássaros, e ele disse-me que o meu sonho não prenuncia apenas fenómenos horríveis: também sugere que todo este horror que descrevi pode ser evitado se conseguirmos refrear os nossos consumos, se nos abstivermos da violência e não excitarmos em demasia a violência alheia, e se voltarmos a saborear de vez em quando os antigos ritos e os costumes desusados - porque, no fim de contas, hoje ainda podemos desligar o computador e a televisão e, em vez de voarmos num charter para as Maldivas, ficar a conversar sobre qualquer assunto ao pé da lareira; só precisamos de força de vontade.
Mas, disse ainda o meu oniromante, até isto é um sonho, e é preciso que tenhamos a coragem de parar de vez em quando, para evitarmos que os sonhos se tornem em algo pior. E como tal, continuou o meu oniromante (que é sábio mas irritadiço, como todos os profetas a quem ninguém presta atenção), vão todos dar uma curva, porque em parte estes problemas também são culpa vossa.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Manifesto Anti-Dantas


ALMADA NEGREIROS
dito por Mário Viegas
Clicar no título

terça-feira, 28 de setembro de 2010

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Dois poemas de Sophia

"Um dia"
"Quando"

Jorge de Sena

Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya

quinta-feira, 11 de junho de 2009

A dor e a morte (António Alçada Baptista)

A natureza do pensamento ocidental, tal como ficou condicionado pela importância que a razão nele tomou, talvez tenha sujeito a condição humana a um incomensurável equívoco. O facto é que temos a presunção de que tudo tem que ser "razoável" mas nada é intrinsecamente "razoável". Se alguém por aí tiver dúvidas, olhe de frente e com demora para a dor e para a morte.
É evidente que isto de considerar a dor e a morte como duas coisas que não deviam existir desencadeou na história uma luta sem tréguas contra uma e contra outra que decerto não teria existido se tivéssemos permanecido budicamente conformados com a sua inamovível existência. Mas o que eu, em horas mais exigentes, me pergunto é se isto de olhar para as evidências do mundo como coisas que não deviam existir não impede ou pelo menos não dificulta a nossa reconciliação com o universo, já que é dessa reconciliação que pode depender a nossa alegria e a nossa paz.
António Alçada Baptista, "Peregrinação Interior - vol. II - O Anjo da Esperança", Editorial Presença

sábado, 25 de abril de 2009

Carta da senhora Stolle à sua Amiga do Peito (Gonzalo Torrente Ballester)

Oh, darling, darling, mon coeur, a que ponto me comove esta coincidência nos gostos que se deduz da tua última carta! Como posso concordar com os laços de moiré na garganta quando se tem um decote escandaloso? E quem me convencerá de que o lacinho, mesmo violeta, minora o efeito, perturbador até à repugnância, do que quase se mostra um pouco mais abaixo? Não sei que inventarão esses Franceses para conseguir que todas as mulheres pareçam cocottes mas, felizmente, o bom exemplo chega-nos do outro lado do canal, nas pessoas e nos costumes da Corte Impecável. Ali não se usam lacinhos de moiré. Logo, nada de lacinhos e para o Inferno, sem paliativos, aquela que os usar. Consultei sobre o caso o reverendo Virgílio, que é um dos meus fiéis (já te falei dele, não é verdade?) e, depois de estudar o caso muito conscienciosamente, respondeu-me que a intenção do lacinho, apesar de inicialmente parecer convidar a uma distracção, acaba por actuar como um indicador e que, portanto, e sem susto, se pode considerar o seu uso como um costume quase diabólico, no caso - acrescentou - de o diabólico existir como se vem entendendo e não de maneira abstracta e especulativa, entre a fantasia teológica e a poética." "Então, reverendo, o senhor acha que a senhora Rheinland, que foi a primeira a usá-lo, ao mesmo tempo que rebaixa o decote uma polegada está, como quem diz, no próprio Inferno?" O reverendo demorou-se um momento a responder, como se estivesse a pensar no assunto; depois disse-me: "No caso problemático de que exista o Inferno e de que a senhora Rheinland se sobreviva a si própria para poder ir ter a ele, pode ter a certeza de que, de certo modo, já lá está instalada." "Mas, reverendo, isso que acaba de me dizer supõe alguma dúvida acerca da realidade do Inferno?" "Dúvida metódica tão-só, dúvida científica. O teólogo sério não pode, sem mais nem ontem, aceitar as crenças tradicionais que, pelo menos uma vez em cada século, têm de ser revistas. Nós quase não o fazemos desde os tempos de Lutero." Não desatei a chorar por vergonha, nem me lancei nos seus braços porque o pobre Virgílio é tão distraído e, sobretudo, tão inexperiente (pratica o celibato, como nos velhos tempos) que não teria sabido o que fazer comigo, apesar de estarmos sós e de eu saber de sobra o que faria com ele. Irritava-me suspeitar que a senhora Rheinland pode continuar a mostrar os peitos aqui no Aquém, com a consciência tranquila acerca do que lhe possa vir a acontecer no Além. Eu tenho má consciência, graças a Deus e à boa educação que recebi; que seria de nós sem a má consciência? Que seria de ti, amor, darling, exímia em tantas perversidades mentais? Lembras-te de quando, na corte de Haia, brincávamos a fazer de conta que matávamos as pessoas feias? Que as matávamos com o coração, não com punhal nem com veneno. Finalmente acalmei. "Reveja o que lhe parecer bem, reverendo, mas não nos deixe sem Inferno. Se me tira essa arma, como poderei combater contra essa bruxa da senhora Rheinland, essa judia vergonhosa e desavergonhada?" "Pensarei nisso, pensarei nisso." No fundo, foi uma sorte que o reverendo não me tenha levantado as saias, como era o meu gosto, porque, naquele momento, entrou Simone Paschal com notícias políticas expressas aos gritos convulsos. "Correm com ele, correm com ele, querem correr com ele!" "Com quem?" "Com quem haveria de ser? Com o grão-duque." As notícias que trazia talvez venham de Viena, mas talvez venham de Munique e, com estas incertezas, nunca há nada que se possa comentar com um mínimo de lógica, como nos bons tempos. As notícias incertas só permitem o comentário a meias, cheias de mas, de talvez, de quem sabe, e de distinguos perigosos. E as mulheres como eu só se mostram na plenitude do seu encanto quando afirmam, quando esmagam. Tive que desviar a conversa para a senhora Rheinland e afirmar, como se afirma a morte, que segura as mamas com um artifício moderno que lhe trouxeram de Paris (a propósito, sabes alguma coisa disso?). Enfim, é muito provável que tu, nesse retiro italiano, saibas mais do que nós ou, pelo menos, que as notícias te cheguem menos torcidas. A única coisa segura é que resta, ao grão-duque, pouco tempo de reinado, a não ser que apareça não sei que talismã milagroso do qual se fala por estes dias, que um verdadeiro exército de esbirros se dedica a procurar por toda a cidade, não da parte do grão-duque, que esse não está nada preocupado, mas da outra. Um talismã! Imagina. Como nos tempos da Maria Caxuxa. Será esse falo francês que usava Isabel de Inglaterra e que lhe deu tanta sorte que foi a única das jóias da coroa que não apareceu nunca? Trata-se de algo desse tipo que, encontrado, assegurará o trono ao nosso grão-duque. Dizem que o traz um adolescente divino, ao qual quiseram já assassinar umas vezes, sei lá, e que o verei trazer ao meu salão. Além do mais é poeta. Isso do divino entende-o como quiseres.
Não deixes de me dizer como resolvem as Italianas a questão do lacinho. Não estou nada tranquila. Tenho ouvido dizer que os moralistas católicos permitem que o decote baixe tudo o que se quiser contanto que não se mostrem as pontinhas. Que mesquinhos são esses padres! Imorais! E os peitos que vão caindo, quê?
Margarita, darling, manda-me um desses livros que tu sabes. A senhora Rheinland dedica-se à importação de escritores franceses. Os ingleses já os conhecemos todos, ainda que não entendamos nenhum. Que se escreve em Itália? A velha musa de Aretino, já se extinguiu? É a maldita política que esgota o bom humor e a invenção.
Gonzalo Torrente Ballester, "A Rosa dos Ventos", Difel

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Ode à chuva (Pablo Neruda)


Voltou a chuva.
Mas não veio do céu
ou do Oeste.
Voltou da minha infância.
A noite abriu-se, um trovão
comoveu-a, o estrondo
varreu as solidões,
e então
chegou a chuva
da minha infância,
primeiro
numa rajada
raivosa, depois
como a cauda
molhada
dum planeta,
a chuva
tic tac mil vezes tic
tac mil
vezes um trenó,
uma vasta pancada
de escuras pétalas
na noite,
subitamente
intensa
crivando
a folhagem
com agulhas,
outras vezes
um manto
tempestuoso
tombando
no silêncio,
a chuva,
mar do céu,
rosa fresca,
nua,
voz celeste,
violino negro,
formosura,
amo-te
desde criança,
não por seres boa,
mas pela tua beleza.
Caminhei
com os sapatos rotos
enquanto os fios
do céu escancarado
se desatavam sobre
a minha cabeça,
traziam-nos
a mim e às raízes,
as mensagens
das alturas,
o húmido oxigénio,
a liberdade do bosque.
Conheço
os teus desmandos,
o buraco
no telhado
gotejando
nos quartos
dos pobres:
ali desmascaras
a tua beleza,
és hostil
como uma
celestial
armadura,
como um punhal de vidro,
transparente,
ali
conheci-te de verdade.
No entanto,
continuei
apaixonado
por ti,
de noite
fechando os olhos
esperei que caísses
sobre o mundo,
esperei que cantasses
somente para o meu ouvido,
porque o meu coração guardava toda
a germinação terrestre
e é nele que se fundem os metais
e o trigo se levanta.
Amar-te, no entanto,
deixou-me na boca
um gosto amargo,
amargo sabor de remorso.
De noite, aqui em Santiago,
somente as povoações
de Nueva Legua
se desmoronaram,
as vivendas
cogumelo,
amontoados
fragmentos de ignomínia,
ao peso da tua cólera
desmantelaram-se,
as crianças
choravam na lama,
as camas encharcadas
dias e dias,
as cadeiras quebradas,
as mulheres,
o lume, as cozinhas,
enquanto tu, negra chuva,
inimiga,
caías desalmadamente
sobre a nossa miséria.
Eu creio
que um dia,
que marcaremos no calendário,
terão abrigo seguro,
sólido tecto,
os homens no seu sono,
todos
os adormecidos,
e quando de noite
a chuva
regressar
da minha infância
cantará nos ouvidos
doutras crianças
e alegre
será o canto
da chuva no mundo,
e trabalhadora,
proletária,
ocupadíssima,
fertilizando montes
e planícies,
dando força aos rios,
engalanando
o suave arroio
perdido na montanha,
trabalhando
no gelo
das nevadas,
correndo sobre o lombo
do gado,
engrandecendo o germe
primaveril do trigo,
lavando as amêndoas
ocultas,
trabalhando
denodadamente
e com delicadeza fugidia,
com mãos e com fios
na preparação da terra.
Chuva
passada,
ó triste
chuva
de Loncoche e Temuco,
canta,
canta,
canta sobre os telhados
e as folhas,
canta no vento frio,
canta em meu coração, na minha confiança,
no meu telhado, em minhas veias,
na minha vida,
eu não te receio,
resvala
para a terra
cantando com o teu canto
e com o meu
porque os dois temos
trabalho nas sementes
e partilhamos
o dever cantando.

Pablo Neruda, "Odes elementares", Publicações Dom Quixote